Entrevista a Luís Garzon – Voltalegre

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Entrevista a Luís Garzon - Voltalegre

Domingo no último dia do mês de janeiro, fomos até à Herdade Doña Ana, onde pasta o efetivo da ganadaria Voltalegre, uma ganadaria recente com grande vontade de vingar nas arenas portuguesas. Saímos cedo numa manhã de frio e chuviscos. Fomos bem recebidos, pela simpatia de Sérgio Paliotes o maioral e por Luís Garzón ganadero. Realizamos uma entrevista ao ganadero na presença do seu maioral que posteriormente nos levou a visitar os pastos verdejantes onde pasta a belíssima vacada e os parques onde estavam apartados os toiros da presente temporada. Em nosso nome queremos agradecer a gentileza por nos terem recebido na vossa herdade.

Nome: Luís Garzón

Data Nascimento: 20-06-1970

Naturalidade: Sevilha

Função: Proprietário

JRC – Sendo uma ganadaria recente, esta é uma paixão que vem de família?

LG- Uma paixão de muitos anos dentro da família, o meu pai passou a sua afición aos filhos, o meu pai não era ganadero, mas sim os meus tios, por vários sítios tenho tios como ganaderos e sempre foi uma coisa que se falava em casa desde pequenos.

JRC – Nos tempos que decorrem, é fácil manter uma herdade e a criação da raça brava?

LG- O tempo… há muito tempo que não é fácil a criação do toiro de lide, devido á crise taurina tanto em Espanha como Portugal e em todo o mundo desde há anos, certo que mais acentuada agora, agravou-se com a pandemia que inconvenientemente não deixa espetadores irem à praça, logo não há corrida de toiros. Como se resolve isso? Como se segue em frente? Primeiro com muita paixão, com muita garra, pondo ao serviço do toiro um esforço económico, e claro com a ajuda das pessoas que estão comigo aqui no campo, que para mim são fundamentais, por exemplo o Sérgio, o meu maioral, uma pessoa que me ajuda e encoraja, colabora e que está dia-a-dia aqui com os toiros. É fundamental a paixão a força económica e pessoas como o Sérgio que estão aqui o dia-a-dia. Também não me posso esquecer de duas pessoas importantes na ganadaria como Juan Manuel Garcia e o matador José Garrido que da mesma maneira, com seu esforço, fazem com que o projecto seja possível.

JRC – Em que ano fundou a ganadaria?

LG- Em 2008, anteriormente tinha fundado uma ganadaria em Espanha com o meu irmão, que era o ferro “Hermanos Garzón”, essa ganadaria fundou-se nos anos 90/91.

 

JRC – Ao longo dos anos tem adquirido várias vacas de ventre e sementais, actualmente qual o encaste que predomina mais?

LG- Nós comprámos a herdade ao cavaleiro, maestro João Moura, e quando comprámos a herdade no contrato constavam 100 vacas do seu ferro. Temos seguido o seu encaste atualmente com períodos de seleção das vacas por ano, tentado manter sempre o encaste Moura o melhor possível, depois entraram vacas de encaste Domec de Daniel Ruiz, de Nuñez del Cuvillo e a última de Torrealta de Caetano Muñoz.

JRC – Para si o que é ser criador de toiros de lide?

LG- Ser criador de toiros de lide como antes disse, é uma paixão, orgulhar-se da sua paixão quase como um romance. Sonhar com a bravura que criamos na cabeça, e por vezes devido ao esforço de todos se reflete numa praça de toiros. Quando se vê esse esforço em praça sentimo-nos compensados, esse é o meu sonho!

 

 

JRC – Qual o tipo de seleção das novilhas nas tentas?

LG- O critério da seleção das novilhas e bezerras é a bravura, eu penso que todo o defeito de um toiro bravo parte da sua mansidão, quando solta a cara, levanta a cabeça, não humilha, investe a meia altura, solta-se, se pensarmos bem tudo isso são actos de mansidão. O primeiro pensamento que tenho de um toiro é a bravura e a partir dessa bravura moldá-lo para o que eu penso serem os tempos actuais, partir dessa bravura criar uma investida para facilitar o triunfo ao toureio e que desfrute. Mas o principal é a bravura, a partir dai moldamos.

JRC – Em média quantas novilhas tentam e quantas são aproveitadas pela bravura?

LG- Estamos a tentar entre 45/50 vacas, aproveitam-se muito poucas… aí umas 15/20 no máximo, dependendo também do semental. Sou muito, muito seletivo e exigente nas vacas e mais ainda nos tempos que decorrem. A venda do toiro bravo está complicada como todas as coisas e somos tremendamente exigentes.

 

JRC – Quantas tentas realizam por ano?

LG- Muitas… Talvez 50. Fazemos por ano cerca de 20/25 tentas de fêmeas e dos machos ronda as 5 tentas, fazendo no total cerca de 30.

JRC – Que matadores são mais assíduos na sua casa?

LG- Os matadores mais assíduos são José Garrido, que eu apodero e nos une uma grande amizade, bem como Miguel Angel Perera e outras figuras que passam cá por casa como El Juli, Morante de la Puebla, Talavante…

 

JRC – Qual o matador que mais gosta de ver tourear os seus touros?

LG- Um toureiro bom! Não posso pensar num toureiro em particular, penso que quando há uma boa investida facilita o triunfo a um bom toureiro, é claro que não gosto que mate um toureiro mau.

JRC – Em média quantos eventos realizam por ano?

LG- Este ano temos 4 corridas de toiros, normalmente são poucas uma vez que somos uma ganadaria que está a crescer. O ano passado 2/3 corridas e mais 2/3 novilhadas. Este ano como sabem temos uma no Campo Pequeno, e outra numa localidade de Madrid em outubro e mais 2 que temos de ver para onde vão.

JRC – Este ano tem a sua estreia em Portugal, no CP … quais as suas expetativas para a corrida?

LG- Primeiro temos de saber como vai ser o cartel, temos de ver se vai ser uma corrida mista, só a cavalo, ou só a pé… o empresário falou-me dessas possibilidades. Tenho de olhar um pouco para a corrida e decidir, tenho toiros que podem servir mais para o toureio a cavalo e outros para a lide apeada. A expetativa sempre é que saiam as coisas bem, e depois com estas coisas morro de medo. O meu maioral Sérgio é quem me anina quando diz “Está tudo feito! No passa nada.” Tenho uma ilusão tremenda no Campo Pequeno porque apesar de ser espanhol adorava ser muito bom ganadero português, estar ao nível dos grandes ganaderos que tem havido em Portugal! Apoderei um toureiro português, João Augusto Moura quando era novilheiro e visitei muitas ganadarias… oxalá que saiam bem e que a entrada no Campo Pequeno sirva para entrar e começar a crescer como ganadero em Portugal. Ser conhecido, ser um grande ganadero aqui como Varela Crujo, Joaquim Murteira Grave, Falé Filipe, Vinhas…todos são grandes ganaderos, não quero deixar nenhuns para trás e pouco a pouco chegar a eles e tentar chegar onde” Moura” chegou que era uma grandiosa ganadaria, assim entramos no Campo Pequeno que sirva com a ilusão de estar entre as melhores de Portugal, faltando ainda muito, mas vamos começar por aí!

JRC – Tenciona lidar mais vezes em Portugal?

LG- Sim, adorava ter mais corridas em Portugal, certo é que a nossa ganadaria está mais pensada, seleccionada e relacionada com o toureio a pé, mas sim gostava de lidar mais vezes em Portugal, poder competir com outros ganaderos… que Voltalegre seja uma ganadaria de referência e prestígio em Portugal.

 

JRC – Por ano quantos curros de toiros tem a sair para as arenas?

LG- Este ano 4 como antes disse. O ano passado saíram 2 corridas, 2/3 novilhadas mais ou menos por ano cerca de 7 espetáculos

JRC – Porquê a aplicação de fundas nos toiros?

LG- Porque passámos um ano onde nos morreram muitos toiros por brigas, cornadas o que nos levou a aplicar as fundas, mas quero dizer uma coisa, as fundas têm uma coisa muito boa (evita que se matem) mas também tem coisas menos boas, o maneio dos toiros nos corrais, tapar cara, metendo as fundas, todo esse manuseamento ensina o toiro, muitas das vezes alguns deles na arena mostram que já foram “mexidos”, orientações que não deviam vir com os toiros. Aqui colocam-se as fundas, mas tentamos que cada vez que as colocamos, e já falei isso várias vezes com o Sérgio (maioral) que o seu manuseamento nos corrais acusa depois em praça, damos um exemplo que cada vez que cai uma funda, já definimos que não voltamos a colocar, porque ao entrar muitas vezes nos corrais os toiros aprendem, essa é a parte má, mas realmente tem muita coisa boa. Aqui colocam-se as fundas e vão-se continuar a meter, mas se caírem não se recolocam porque é inconveniente.

JRC – Há alguma praça que gostasse de lidar os seus toiros?

LG- Somos uma ganadaria muito jovem ainda, ainda não lidamos em praças grandes… já lidámos na Extremadura várias vezes o ano passado, tivemos corridas com Ginés Marin, José Garrido e Juanito que obteve um grande triunfo, são vários os toureiros relevantes que já mataram toiros desta ganadaria mas até agora tudo em populações pequenas em Espanha. A ilusão é evidentemente estar em praças com mais nome. O que importa mais é que sejam mortos por figuras, um toiro grande, algo que eu tenho, um toiro que vai ao campo pequeno, do encaste Moura, um toiro forte com cara, mas o que mais me preocupa é criar um toiro para que a investida que sonho possa servir o toureiro e que não mate a figura, não me preocupo tanto com a praça….

JRC – Após vários encastes, entre eles João Moura, Nuñez del Cuvillo, Torre Onofre (Maribel Ybarra), e Caetano Muñoz qual o que se encaixa mais no seu perfil de seleção?

LG- Moura, Moura, Moura, a classe que têm Moura, a investida de Moura e Maribel-Ybarra de Caetano Muñoz que comprei agora, a parte que tinha Caetano Muñoz e Torrealta e Maribel-Ybarra também, a parte que tem Moura e Maribel-Ybarra são especiais, um toiro e uma vaca de Moura investem bem, para mim é algo de distinto, têm um toque especial, sendo que todos os outros encastes são também de magnificas ganadarias, mas actualmente o melhor, o que predomina cá em casa é Moura, o maioral pode confirmar.

 

JRC – Recuperou a Herdade, e iniciou um grande projeto, com a ganadaria, visitas… Que palavra quer deixar a quem queira conhecer esta belíssima “finca”

LG- Quem vier irá encontrar uma herdade maravilhosa, um marco grande dentro da sua paisagem, a natureza e a fauna são maravilhosas. Perfeitamente cuidada por todas as pessoas que trabalham aqui… todos os animais que estão aqui desde o gado bravo, manso, cavalos, porcos todos estão perfeitamente cuidados e é digno de se ver, mostramos como se cuida dos pastos de todos os animais e de toda uma ganadaria!

 

JRC – Uma palavra/sugestão para o Forcadilhas e Toiros/ Pedra d´Arco.

 

LG- Quero agradecer por trabalharem neste mundo a favor do toiro, pelo grande trabalho que fazem, por ajudarem este mundo, e que aqui estão em vossa casa! Quero terminar com Deus, que sou uma pessoa bastante religiosa, que nos ajude a todos, ao mundo dos toiros e a todo o mundo que vive este momento complicado, que nos ajude a todos!      “Luis Garzon”

NUMA PALAVRA:
Um ganadeiro?      Cuvillo

Um toiro?     Diano (Vicente Martínez)

Um maioral?     Sérgio Paliotes

Um toureiro?     Joselito El Gallo

Um bandarilheiro?    Blanquet

Uma praça?    Sevilha

Um cavalo?    Ferrolho

Uma herdade?    Dona Ana

Uma ganadaria?    Moura

Um clube?    Sevilha FC / Atlético Madrid

Um Grupo forcados?  Grupo de Forcados Amadores de Monforte

Um cavaleiro?    Maestro João Moura

Um jogador?    Futre

Um filme?    Gladiador

Um país?    Espanha / Portugal

Uma cidade?    Sevilha

Praia ou campo?     Campo

Um destino de férias?     México

Comida favorita?     Ovo frito com batatas

  Um sonho?    Que toda a família e quem eu quero sejam felizes
 

Uma entrevista conduzida por João Rodrigues de Carvalho (Pedra d´Arco) em colaboração com Forcadilhas e Toiros.

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